A Marvel de 1968 no caldeirão dos movimentos civis dos EUA

Para continuar as análises sobre momentos das histórias do demolidor dos anos 60, achei muito relevante trazer mais contexto não só sobre uma espécie de representação responsável nas revistas, mas também como a Marvel (e principalmente Stan Lee) lidava com o posicionamento político da editora.

Havia, desde a gênese dos super-heróis da editora em 1961, uma busca por heróis que causassem maior identificação com os leitores. Isso incluia personagens menos divinos/perfeitos, com falhas, histórias trágicas (conforme comentado no texto sobre a concepção do Demolidor) e que estivessem mais próximos da nossa realidade. Essa aproximação também ocorria na ambientação, ou seja, nada das fictícias Metrópolis ou Gotham City: o Quarteto Fantástico tinha residência na ilha de Manhattan!

Nessa época o uso de cidades reais e ponto turísticos já era uma marca forte da Marvel há mais de 20 anos, quando a editora orquestrou um dos primeiros crossovers de super-heróis, com Namor e o Tocha Humana (original) em um embate que percorreu vários pontos turísticos de Nova Iorque (o Túnel Holland, Empire State Building, Zoológico do Bronx, Ponte George Washington, Estátua da Liberdade e o Radio City Music Hall).

Capa de Marvel Mystery Comics n. 9. Nela temos a ilustração do Tocha Humana Original combatendo o Namor. O Namor está quebrando uma viga de sustentação de um trem/metro enquanto o Tocha Humana está voando em sua direção. Ao fundo, policias estão chegando próximos a eles.

Marvel Mystery Comics n. 9 (1940)

Vale um parênteses para destacar que essa abordagem, que levava o leitor a pensar que poderia dobrar a esquina e se deparar com um super-herói voando, foi muito bem reaproveitada em 1993, quando Kurt Busiek e Alex Ross puseram o realismo nessa equação na Graphic Novel Marvels (que, inclusive, retrata esse confronto do Namor e Tocha Humana).

Uma das capas de Marvels. Ela está na perspectiva de dentro de um escritório de um prédio, com os trabalhadores olhando assustados para fora. Pelo vidro da janela é possível ver o Homem-aranha (grudado no vidro)  em um confronto com o Duende Verde (que chega voando em seu planador).

Marvels (1994)

Essa ambientação, no entanto, não se restringia a elementos geográficos. Mesmo com uma enxurrada de super-heróis do período participando da Segunda Guerra Mundial (até o Superman), foi a Marvel quem mais conseguiu dinheiro e notoriedade nesse período. O principal destaque é o próprio Capitão América e sua origem intrínseca à propaganda militar dos EUA.

Capa de Capitão América nº1 mostrando o Capitão América desferindo um soco em Hitler. Ele usa o escudo original (formato de escudo, não disco). Ao redor deles estão vários outros nazistas atirando no Capitão.

Capitão América nº 1 (1941)

Voltando aos anos 60, décadas após o fim da guerra, o inimigo nazista dá lugar ao inimigo russo e comunista, reflexo da Guerra Fria; O Quarteto Fantástico viaja pelo espaço enquanto os rádios narram a corrida espacial entre EUA e URSS; e Stan Lee frequenta universidades no intuito de se aproximar de um público para além do infantil (tendo o Surfista Prateado como o principal personagem usado para essa bem-sucedida conexão).

No documentário Stan Lee (2023) há um trecho marcante de um programa (provavelmente transmitido no fim dos anos 60) com a presença de Lee, Julius “Julie” Schwartz (editor da DC Comics) e um leitor de quadrinhos (adulto e provavelmente universitário):

Stan Lee: O que acontece nos quadrinhos hoje? Eles conquistaram um público mais velho. Na Marvel, temos tanto universitários lendo nossas revistas, como temos crianças de sete anos.
Leitor: Qualquer pessoa pode pegar uma hq da marvel e aprender algo com ela.
Julie Schwartz: Por que diz que ele tem que aprender algo? Ele não pode se divertir com o que lê? Ele tem que ler como um livro escolar?
Leitor: Você não pode ser educado e entretido ao mesmo tempo?
Julie Schwartz:Não. Descobrimos que nossos leitores querem se divertir. Eles querem se entregar. Eles não querem ser educados.
Leitor: Eu não recomendaria Superman ou Batman para ninguém com mais de 12 anos. Eles são legais para crianças. Os adultos passaram a acreditar que não há nada de valor nos quadrinhos para eles, e há algo de valor. Você não pode condenar um meio com base em seu formato.

Enquanto o editor da concorrente se exaltava e discutia com o leitor, Lee observava e ria.

Duas cenas da entrevista citada no texto. Na primeira vemos o leitor olhando para Julie Schwartz (que está com a mão a frente, argumentando) ambos sentados cadeiras verdes. Na segunda temos Stan Lee, também sentado, com um sorriso no rosto observando a discussão dos outros dois.

Essa conexão com diversos públicos também tem a ver com linguagem. Lee alegava que buscava diversificar no vocabulário das histórias, tanto nos recordatórios em que conversava diretamente com o leitor, quanto nos balões de fala dos personagens:

Uma coisa que eu sempre tentei fazer foi usar um vocabulário comum nas nossas histórias. Se eu quisesse usar uma palavra como 'cataclísmico' ou qualquer outra mais elaborada, eu usava. E eu pensava o seguinte: se as crianças estivessem interessadas na história e esbarrassem numa palavra que não entendessem, elas aprenderiam o significado pelo contexto, meio que 'por osmose', sabe? Ou, se precisassem pegar um dicionário pra procurar, também não seria o fim do mundo.

(Stan Lee, 2003)

O jornal The Village Voice (famoso na época) destacava que os beatniks, membros de um movimento literário que rejeitava a cultura de massa, haviam adotado as histórias da editora:

Os gibis Marvel são os primeiros da história que conseguem envolver um escapista pós-adolescente [...] porque os gibis Marvel são os primeiros a suscitar, mesmo que metaforicamente, o Mundo Real.

(Sean Howe, 2013)

Nesse contexto, os X-men, criados em 1963, traziam histórias que envolviam pessoas que nasceram diferentes e, por esse motivo (e também pelas ações do vilão Magneto contra a humanidade, claro) eram perseguidos. À exemplo, em sua edição 14, os leitores já eram introduzidos ao ódio de Bolivar Trask, personagem que cria os Sentinelas, robôs caçadores de mutantes.

Página de X-men nº 14 mostrando o vilão Boliviar Trask, nos quadros, ele aparece dando uma entrevista para a Imprensa falando “Temos andado tão preocupados com guerras frias, guerras quentes, bombas atômicas e afins… Que esquecemos a maior ameaça de todas! Mutantes caminham entre nós! Escondidos, insuspeitos e esperando… Aguardando o momento de atacar! Eles são o inimigo mais mortal da humanidade, pois somente eles têm poder para dominar a raça humana! Neste exato momento, estão à solta por aí, planejando e maquiando… achando que não suspeitamos de nada! Mas ainda há tempo de esmagá-los… Se nós atacarmos agora!” seguido de um quadro mostrando jornais do Clarim Diário sendo impressos com a manchete “AMEAÇA MUTANTE”.

X-men nº 14 (1965)

Esses temas também foram abordados em Quarteto Fantástico nº 21, anos antes, com a família de super-heróis enfrentando o Monge do Ódio, uma clara referência à Ku Klux Klan, o grupo de ódio norte-americano que prega a supremacia branca.

Capa de Quarteto Fantástico nº 21 mostrando os heróis sendo atingidos por uma luz proveniente de uma arma do vilão Monge do ódio, vestido com uma túnica roxa e um capuz pontudo.

Quarteto Fantástico nº 21 (1963)

Eu não quero soar como o cara mais moral do mundo, mas sempre senti que havia algumas questões que deviam ser abordadas. Uma das coisas que é terrível é o fato de que muitas pessoas não gostam e odeiam outras pessoas apenas porque são diferentes. Eu fiz uma história chamada “O Monge do Ódio”, e foi realmente uma mímica da Ku Klux Klan. Tinha a ver comum vilão que defendia o ódio de um grupo de pessoas por outro. Eu meio que esperava que isso desse aos nossos leitores a ideia de que todas as pessoas deviam ser tratadas da mesma forma.

(Stan Lee, 2023)

Enquanto isso, principalmente por sua proximidade com as universidades e com temas populares, surgiu uma cobrança (em forma de cartas) para Stan Lee e para a Marvel de um posicionamento mais claro sobre os movimentos civis que estavam em ebulição nos Estados Unidos, principalmente no fim daquela década.

A Guerra e Os Movimentos #

A Marvel, seguindo seu plano de ambientação no mundo real, nunca ignorou a existência da Guerra do Vietnã, inclusive a origem do Homem de Ferro (em 1963) é inerente à ela. Porém o problema posto era: com um público dividido entre apoio versus repúdio ao conflito armado, qual lado os seus heróis preferidos defenderiam?

Comercialmente, era recomendável à Marvel ficar em cima do muro, mas havia críticas fortes quando as histórias evitavam questões sociais. O centro-esquerdismo de Lee era, a seu modo, irremovível. Ele ficava feliz em pregar tolerância, mas não ia ser visto assumindo uma postura impopular. “Acho que não vamos mandá-lo para o Vietnã”, Lee disse numa entrevista no rádio, quando questionado sobre planos para o Capitão América. “Tratamos estes personagens meio na brincadeira e damos boas risadas com eles, nos divertimos muito. Não sei se seria de bom gosto pegar algo sério como o que está acontecendo no Vietnã e botar um personagem como o Capitão América... teríamos que começar a tratá-lo de forma diferente e levar tudo mais a sério, algo para que não estamos preparados.

(Sean Howe, 2013)

Sean Howe conta em Marvel Comics - A História Secreta que não havia um consenso nem na próprio time criativo da empresa e que ocorreu um grande conflito entre Stan Lee e Roy Thomas quando a primeira edição de “Not Brand Echh” (uma cópia da revista MAD) chegou a mesa de Lee com um quadro no qual um personagem usava um broche dizendo “Com LBJ até o fim!” e mostrava um cogumelo atômico. O acrônimo era de Lyndon B. Johnson, presidente americano em atividade e responsável por um aumento expressivo no número de soldados enviados ao Vietnã:

Quadro de Not Brand Echh nº1 mostrando dois personagens. O que está em primeiro plano usa um longo chapéu que tem um broche amarelo escrito “All the Way - LBJ” e com uma pequena ilustração do que parece ser uma explosão atômica.

Not Brand Echh nº1 (1967)

Deu um berro para Thomas vir à sua sala, apontou para a ilustração e acusou-o de infiltrar suas ideologias na última hora. Mas estava nos originais, disse Thomas – já estava quando você conferiu antes. Lee insistiu que não. Se vai me acusar de mentiroso, disse Thomas, eu me demito. Saiu de lá furioso. Lee ligou, pediu para ele voltar, fechou a porta e lentamente começou a desculpar-se, explicando que a representação pessimista da guerra nos gibis de 1950 da Timely, embora longe de representar a política radical, havia resultado no banimento da Timely nas lojas do exército, uma grande fonte de renda da empresa. Lee voltou à década anterior, a década de Fredric Wertham, dos depoimentos no congresso, das demissões que ele tivera de fazer em 1957. Aqueles dias magros e cruéis se misturavam na cabeça de Stan Lee, e ele não os queria de volta. Passara anos como mestre do meio-termo, no ofício de criar histórias tão ambíguas nas entrelinhas políticas, que a Marvel era aceita tanto pela extrema-esquerda quanto pela extrema-direita.

(Sean Howe, 2013)

Um ano depois, em 1968, as coisas mudaram drasticamente e movimentos anti-guerra ganharam força, principalmente depois que Martin Luther King e Robert F. Kennedy foram assassinados, duas fortes figuras populares que mantinham um discurso pacifista. O público universitário que Stan Lee tanto foi atrás era quem mais cobrava a Marvel:

Durante um painel de perguntas numa convenção, um fã atacou Lee quanto à Marvel se fazer de linguiça em temas sociais. “Nossa opinião”, respondeu Lee, “é que as páginas dos nossos gibis talvez não sejam o lugar certo para pegar pesado com mensagens sociais, sejam elas quais forem. Talvez estejamos enganados. Talvez devêssemos vir com mais força, talvez seja o que vamos fazer.

(Sean Howe, 2013)

Direitos civis nos Estados Unidos #

A Marvel passou a incluir mais manifestações populares nas histórias, mas continuava em cima do muro: em Homem-aranha nº 68, Lee e Romita retratam estudantes que querem reivindicar um prédio da universidade como dormitório e Peter Parker fica oscilando entre apoiar e repreender os jovens. Antes da resolução, os manifestantes chegam a ser presos, acusados falsamente de terem ajudado o Rei do Crime.

Capa de Homem-aranha nº 68 mostrando vários estudantes em uma manifestação erguendo placas com dizeres como “abaixe o aluguel dos dormitórios”. Acima deles, o Homem-aranha se balança ao lado do título “Crise no Campus”

Homem-aranha nº 68 (1968)

O ano de 1968 também foi um ano crucial para os movimentos pelos direitos civis dos negros nos EUA, não só marcado pelo assassinato de Martin Luther King, como pelo fortalecimento dos Panteras Negras. O grupo político que, diferente do que a maioria das pessoas imagina, não é a razão da criação do herói Pantera Negra, na verdade ambos compartilham a mesma inspiração visual: a logo da Organização pela Libertação do Condado de Lowndes, partido político do Alabama que havia ficado popular em uma matéria do New York Times de 1966.

O logo da LCFO, uma pantera-negra, era tão marcante que as matérias começaram a chamar o grupo de partido Pantera-Negra. Quando Quarteto Fantástico n. 52 chegou às bancas, o Tigre de Carvão – o aventureiro africano que Lee e Kirby haviam deixado na geladeira por meses – tinha um novo nome. Mesmo com o adiamento, o Pantera-Negra ainda fez história como primeiro super-herói negro a chegar ao grande público. Assim como vários totens da contracultura em fins dos anos 1960, a Marvel transacionava uma grandiosidade sci-fi alucinante. Quando não estava fantasiado, o Pantera-Negra era um príncipe africano chamado T’Challa, que governava o fictício país Wakanda. Não era um nobre selvagem do Continente Negro, mas um gênio da ciência que impressionava até Reed Richards.

(Sean Howe, 2013)

Capa de Quarteto Fantástico nº 52 mostrando os quatro heróis se espreitando por um cenário tecnológico e, acima deles, o Pantera Negra no ar ao lado do título “Introduzindo o sensacional Pantera Negra!”

Quarteto Fantástico nº 52 (1966)

No mesmo ano, Lee incluiu o T’Challa no grupo dos Vingadores, mas esse único expoente ainda estava longe do ideal de representatividade que cada vez mais era exigido pelo público (só em 1969 outro personagem de destaque semelhante surgiria, o Falcão, introduzido em Capitão América n. 117):

Quando o East Village Other publicou um artigo lamentando a falta de personagens negros nas publicações Marvel e DC, Lee mandou um editor-assistente escrever uma carta destacando os exemplos que tinha, num misto delicado de recuo e compra de mídia: Você deu a entender que o Pantera era um personagem negro apenas simbólico. Quando ficamos cientes da falta de negros nas nossas revistas e decidimos introduzi-los a nossas histórias, você não acha que ia soar muito tolo repentinamente ter quinze personalidades de cor aparecendo e tomando de assalto todas as séries? No momento, temos T’Challa (o Pantera), Joe Robertson e seu filho, Willie Lincoln, Sam Wilson (o Falcão), Gabe Jones, o Dr. Noah Black (Centurius) e até um supervilão – o Homem-Gorila. Em resumo, cremos que tivemos um bom começo com esses personagens.

(Sean Howe, 2013)

A Marvel estava claramente tentando se virar com o que tinha e correndo para adequar suas revistas à expectativa do público, enquanto tentava ao máximo não se comprometer financeiramente.

Quanto à essas novas histórias escritas diretamente como resposta a essa ebulição de movimentos civis nos Estados Unidos, pretendo discutir sobre um dos personagens negros elencados na citação acima por Lee! Ele está diretamente ligado à Guerra do Vietnã e também ao Demolidor! O nome dele é Willie Lincoln, e será o tema do próximo texto!

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Publicado em 06/03/2026 #

Referências Bibliográficas #

  • Livro “Marvel Comics : a história secreta” (2013) de Sean Howe.
  • Edições 68 a 87 de Homem-aranha, presentes no Encadernado Homem-aranha: Edição Definitiva vol. 5, 2021.
  • Edições 01 a 23 de X-men, presentes no Encadernado X-men: Edição Definitiva vol. 1, 2021.
  • Documentário Stan Lee (2023).
  • Documentário “The Men Without Fear” (2003) entrevistando Stan Lee no conteúdo extra do DVD do filme Demolidor.