A Primeria Profecia e o simbolismo da Medusa

Contém spoilers de A Profecia (1976) e A Primeira Profecia (2024)!

E não é que A Primeira Profecia (2024) dirigido por Arkasha Stevenson entrou para a lista de melhores precedências (prequels) de filmes? O que geralmente é uma tarefa árdua pela inevitável comparação ao filme original e a incessante necessidade de estabelecer conexões que servirão de base para algo que já funciona sozinho! (Qual a necessidade de saber o significado do sobrenome do Han Solo, Disney?)

Bons Presságios #

Caso alguém não conheça A Profecia (The Omen) de 1976, é um clássico do horror, contando a infância do aparente inocente Damien Thorn e a relutância de seu pai, embaixador norte-americano residente na Inglaterra, em reconhecer que seu filho é (nada mais nada menos que) o anticristo, destinado à destruir o mundo.

De forma resumida, além de um excelente filme, ele teve três grandes impactos na indústria cultural:

1 - A popularização do 666 como o número da besta (marca presente na cabeça de Damien)
2 - Restabelecimento da trilha sonora (com temas sacros) como principal característica do horro, uma vez que não há representações gráficas assustadoras ou grotescas. Aqui a aposta é na tensão, não na exposição.
3 - O ponto de partida para a trama de Belas Maldições, escrito por Terry Pratchett e Neil Gaiman, romance paródia publicado em 1990 e que virou série em 2019.

À nova obra de 2024 cabe o grande mérito de Arkasha Stevenson, que além de dirigir, também escreveu o roteiro do filme junto de Tim Smith e Keith Thomas, e focou no papel feminino nessa história, ou seja, na progenitora do anticristo: Margaret, uma noviça norte-americana que é enviada ao Orfanato Vizzardeli em Roma para ser iniciada como freira e jogada no meio de um plano diabólico.

O Cabelo de Medusa #

A exploração do feminino em filmes de horror junto da temática católica não é novidade na cultura pop, justamente pelo respaldo na opressão resultante da atuação da igreja e suas doutrinas (por incrível que pareça, o filme Imaculada lançado no mesmo ano tem a mesma temática! Porém nem se compara em termos de qualidade).

Assim como no filme de 1976, em A Primeira Profecia existe diferenciação da Igreja Católica do Bem (representada pelo Padre Brennan) e a Igreja Católica do Mal (Cardinal Lawrence). A primeira, no entanto, fora responsável por punir Margaret desde sua infância, forçando-a à parar de “acreditar” em seus transtornos psicológicos, tornando-a uma adulta disciplinada no hábito (prestes a tornar-se freira) e reprimida o suficiente para ser vítima da segunda Igreja, ponto de partida da história.

Cena do filme A Primeria Profecia (2024) mostrando Margaret e Luz em uma festa na noite de Roma. Ambas estão maquiadas e tomando shots de bebida alcoólica. Margaret está com seus cabelos soltos e Luz está com uma peruca loira.

(A Primeira Profecia, 2024).

É aqui que um dos principais elementos do filme passa a ter destaque: os cabelos de Margaret. Ela os mantém escondidos sob o véu de noviça até o momento que sua colega de quarto (também noviça) Luz a convence à sair e conhecer um bar noturno da cidade. Após beber e dançar, ela alcança seu êxtase quando o recém-conhecido Paolo faz carinho em seu cabelo na pista de dança ao som de Need Your Loving de The Flirtations. E então, tela preta.

Cena do filme A Primeria Profecia (2024) mostrando Margaret deitada em sua cama com o cobertor (da mesma cor que a cama) tapando-a até o pescoço, passando a impressão que ela é apenas uma cabeça. Seus cabelos estão soltos e espalhados, semelhante às patas de aranhas ou cobras.

(A Primeira Profecia, 2024).

No outro dia, ela acorda em sua cama, o enquadramento evidencia seus cabelos despenteados como cobras e a disposição dos lençóis passa a impressão que sua cabeça não tem corpo. Tal qual a Medusa de Caravaggio.

Pintura à óleo de Caravaggio, pintada sobre uma plataforma convexa de madeira. Ela retrata a cabeça de Medusa decaptada, ela está com uma expressãro de horror e sangue cai de seu pescoço.

Medusa (1597) de Caravaggio - Óleo sobre tela.

Os simbolismos com a Medusa não se restringem à fotografia, pois no quarto do castigo do Orfanato Vizzardeli, a maçaneta tem também o formato da cabeça do monstro mitológico.

Cena do filme A Primeira Profecia (2024) mostrando um close na maçaneta de uma porta. Na malçaneta está esculpida a cabeça de medusa.

(A Primeira Profecia, 2024).

Para além dos signos mais frequentes em histórias semelhantes — à exemplo do diabo como uma fera/besta e a figura feminina como uma eterna representação de Eva e seu pecado original — a utilização literal da figura da famosa górgona traz novas analogias. É revelado no decorrer da trama que Margaret fora enganada a vida toda, tendo sua concepção já como parte de um experimento com o objetivo de torná-la progenitora do anticristo e, naquela fatídica noite de suposta euforia, fora alcoolizada e estuprada pelo Diabo. Todos do orfanato Vizzardeli, exceto as crianças, sabiam do plano e confabularam para o processo violento e apressado de gravidez, forçando-a a ser um mero instrumento para a concepção de Damien.

Eu poderia simplesmente dizer que é possível comparar a tragédia de Margaret com a do famoso mito grego da Medusa, pois ambas foram vítimas da vontade de Deus (ou deuses), contra sua própria autonomia. Porém é mais interessante trazer um contexto maior sobre a Medusa, ou melhor: sobre As Medusas!

A Primeira Górgona #

De onde vem a Medusa que figura no imaginário popular de hoje em dia? É importante estabelecer que em todas as suas representações clássicas ela é um dos desafios que precisa ser superado pelo herói Perseu, um semi-deus ajudado pelos deuses que tenta fugir do próprio destino. A primeira versão literária do mito (que remonta à Grécia Antiga) é menos conhecida: em Teogonia, de Hesíodo, um poema de 1022 versos datados do século VIII-VII A.C., temos a Medusa e suas irmãs Euríale e Esteno tão antigas quanto os próprios deuses, sendo ela, a única mortal e, portanto, vítima de Perseu.

Descendentes de Ceto e Fórcis
(I. 270) Ceto gerou, com Fórcis, as Gréias de belas faces,
Grisalhas desde o nascimento; chama-nas de Velhas
Os deuses imortais e os homens que vagueiam na terra:
Penfredo de belo véu, Ênio de véu açafrão
E as Górgonas, que habitam do outro lado do ilustre Oceano,
Nos confins da noite — onde estão as harmoniosas Hespérides —:
Esteno, Euríale e Medusa, que sofreu a desgraça;
Esta era mortal, e as outras imortais e isentas de velhice
Ambas; com ela se deitou o de Cabeleira Negra
Em um prado suave, entre flores primaveris.
Quando Perseu lhe decapitou a cabeça,
Dela surgiu o enorme Crisaor e o cavalo Pégaso.
Este foi nomeado por junto aos mananciais do Oceano
Haver nascido, e àquele porque tinha nas mãos uma espada de ouro.
Levantando voo, Pégaso abandonou a terra, mãe de rebanhos,
Foi aos Imortais e habita nas moradas de Zeus,
Levando o trovão e o raio ao prudente Zeus.

Teogonia (Hesíodo, VIII-VII A.C)

No poema existe a menção da mesma deitar-se com Poseidon (o de cabeleira negra), mas sem indicação de abuso sexual, algo que seria incorporado ao mito 800 anos depois pelo poeta romano Ovídio, que revisitara a mitologia grega em Metamorfoses, um poema que narra histórias (agora) greco-romanas. Essa versão da Medusa remove sua condição de entidade primordial e a retrata como uma mulher muito bela que foi violentada no tempo de Minerva, por esse motivo castigada pela deusa a tornar-se um monstro que petrifica com seu olhar e depois foi decapitada por Perseu:

Disse o estrangeiro: “O que inquires é digno de ser relatado.
Eis a causa: era muito famosa pela beleza
e gerou enorme cobiça e ciúmes em muitos:
nada havia nela mais lindo ou admirável
do que os cabelos: conheci quem os disse ter visto.
Dizem que o rei dos mares a estuprara num templo
de Minerva: vira-se e com a égide o casto
rosto cobre a filha de Jove, e que impune não fique
transformou os cabelos da Górgona em hidras horrendas.
Hoje ainda, a fim de amedrontar inimigos,
qual decoração no peito leva as serpentes”.

Metamorfosesgonia (Ovídio, 8 D.C)

A Medusa de Ovídio tornou-se muito mais popular, talvez pela narrativa mais elaborada e pela incorporação de temas mais mundanos (ciúmes, vingança), com destaque para a injustiça contra a górgona.

O importante aqui é deixar claro que não existe uma versão correta ou definitiva, estudar mitologia é também estudar suas interpretações ao longo do tempo. Por exemplo, dizer que a deusa Minerva era o equivalente romano da Atena grega é uma simplificação, sempre há mais a se compreender (e estudar isso é sempre fascinante!).

A Nova Górgona #

Os mitos greco-romanos foram reintegrados à cultura ocidental no Renascimento (e no caso em questão, com destaque para a tela Medusa de Caravaggio e a escultura de Perseu de Antonio Canov). Com o passar do tempo, o surgimento das universidades e a proliferação de perspectivas mais diversas e críticas, essas histórias foram sendo ressignificados e usadas como metáfora em novos contextos, como Hélène Cixous fez no ensaio feminista O Riso da Medusa de 1975 no qual a autora reforça a necessidade de que as mulheres se escrevam.

Eu falarei da escrita feminina: do que ela fará. É preciso que a mulher se escreva: que a mulher escreva sobre a mulher, e que faça as mulheres virem à escrita, da qual elas foram afastadas tão violentamente quanto o foram de seus corpos; pelas mesmas razões, pela mesma lei, com o mesmo objetivo mortal. É preciso que a mulher se coloque no texto – como no mundo, e na história –, por seu próprio movimento.

O Riso da Medusa (Hélène Cixous, 1975)

Em seu ensaio, para além da expressão horrorizada da górgona eternizada por Caravaggio, Cixous instrui a rejeitar a tradição falocêntrica e covarde de Perseu (que evitou seu olhar petrificante andando de costas antes de decapitá-la) e convida a leitora a enxergar uma Medusa que ri:

Pior para eles, se desmoronarem ao descobrir que as mulheres não são homens, ou que a mãe não tem um [falo]. Mas será que esse medo não lhes convém de algum modo? Será que o pior não seria, não é, na verdade, o fato de que a mulher não é castrada, que basta a ela não dar mais ouvidos às sereias (pois as sereias eram homens) para mudar o sentido da história? Basta olhar a Medusa de frente para vê-la: ela não é mortal. Ela é bela, e ela ri. [...] Eles precisam ter medo de nós. Olhe os Perseus trêmulos avançarem em direção a nós, cobertos de apotrópicos, de marcha a ré! Belas costas! Nem mais um minuto a perder. Saiamos daqui.

O Riso da Medusa (Hélène Cixous, 1975)

Essa reapropriação da da Medusa como ícone feminista é mais uma evidência da força das narrativas clássicas, sobrevivendo por centenas de anos e encontrando novos sentidos:

Meu texto foi uma atualização da mitologia grega. Não há exemplo melhor para descrever a posição das mulheres e a batalha assassina dos homens contra elas. A Medusa era uma das três Górgonas [poderosos demônios alados], as filhas de Fórcis e Ceto, e a única mortal entre as três. Os homens a temiam, quando olhavam para ela se transformavam em pedra. Mas por que ela tinha tamanho poder sobre os homens? Porque os via – eles não tinham tempo para vê-la. Os homens não querem ver as mulheres e querem cobri-las de véus, para que se tornem invisíveis, como fantasmas. É terrível até que ponto as mulheres têm sido veladas, mesmo na vida cotidiana. No entanto, mulheres não são objetos, nem bonecas veladas. Elas são radiantes. Elas são belas. Minha Medusa viajou pelo mundo. Neste momento, ela está obviamente no Irã.

Hélène Cixous sobre os protestos no Irã (2022)

Estátua Perseu erguendo a cabeça decaptada de Medusa, esculpida pelo italiano Antonio Canova em 1797. Perseu segura na outra mão uma espada e sobr seus pés está o corpo decepado da Górgona.

Estátua Perseu com a cabeça da Medusa, esculpida pelo italiano Antonio Canova em 1797. Perceba que ele está pisando em cima do corpo decepado da Górgona.

A reflexão de O Riso da Medusa perdurou, e cada vez mais a inversão de papéis do herói e do monstro é usada como crítica. Qual o impacto de enxergarmos Medusa como aquela que decapitou Perseu? De acordo com Cixous, a decapitação nada mais é que o medo masculino da castração. Uma nova estátua realizando essa mudança de lugares (contrapondo a escultura de Canova) foi colocada em em um parque de Nova Iorque em 2020, perto do tribunal onde o produtor de cinema norte-americano Harvey Weinstein foi condenado a 23 anos de prisão por estupro e agressão sexual contra mulheres.

Estátua Medusa segurando a cabeça decaptada de Perseu, esculpida por Luciano Garbati em 2008. Medusa segura na outra mão uma espada. A estátua está posicionada em uma praça ao ar livre, com velas aos seus pés.

Medusa com a cabeça de Perseu esculpida por Luciano Garbati em 2008.

Segundo seu idealizador, o argentino-italiano Luciano Garbati, a obra, pesando quase 500 kg e que permanecerá no local temporariamente, por seis meses, pode ser considerada um tributo ao movimento #MeToo, que teve início com o caso Weinstein e se disseminou ao redor do mundo, com mulheres relatando experiências de abuso semelhantes.

BBC (2022)

A Medusa é pop #

Em Percy Jackson e os Olimpianos, série de livros infantojuvenis (publicados a partir de 2005) responsável por apresentar a mitologia grega para uma nova geração, a história de Ovídio é atenuada: uma sacerdotisa que se apaixonou por Poseidon e, após se encontrar com seu amante no templo de Atena, foi transformada em monstro pela deusa.

Por fim eu disse:
— Então temos de agradecer a Atena por esse monstro?
Annabeth me lançou um olhar irritado.
— A seu pai, na verdade. Medusa era namorada de Poseidon. Eles combinaram um encontro no templo de minha mãe. Foi por isso que Atena a transformou em um monstro. A Medusa e suas duas irmãs, que a ajudaram a entrar no templo, se transformaram nas três Górgonas. É por isso que ela queria me picar em pedacinhos, mas ia conservar você como uma bela estátua. Ainda gosta de seu pai. Você deve tê-la feito se lembrar dele.

Percy Jackson e os olimpianos: O ladrão de raios (Rick Riordan, 2005)

Porém, na adaptação da obra para série em 2023 foi feita uma mudança significativa na personagem, com um diálogo que sugere que, na verdade, ela foi enganada por Poseidon e posteriormente punida injustamente por Atena:

O cocriador e showrunner da série “Percy Jackson”, Jon Steinberg, que atribui à roteirista Daphne Olive a condução de grande parte desse enredo, explica como o episódio faz referência ao mito original, mantendo a adequação à faixa etária: “Se você entende do que ela está falando, você entende. Se é jovem demais para essa conversa, isso não vai te incomodar. Você apenas vê uma cena sobre uma mulher que parece complicada. E todo mundo tem uma opinião sobre o que aconteceu. Não existe uma versão que seja a definitiva. Se Atena e Poseidon estivessem naquela sala, você teria três versões diferentes da história”. E, embora sua personagem nunca use a linguagem da agressão sexual, Kennedy sentiu-se resoluta em sua interpretação: “Jon escreveu uma história em que Medusa acreditava que Poseidon era alguém em quem podia confiar, e ele quebrou essa confiança. Ela se sentia segura, e então a situação ficou insegura”, diz ela. “Por isso, escolhi interpretar que ela foi vítima de estupro e de um abandono total, sem entender por que Atena se voltaria contra ela”. Da mesma forma, a explicação de Rick Riordan (autor dos livros) é simples: “Há muitas versões, da antiguidade, sobre o que aconteceu naquele templo com Medusa, Poseidon e Atena. Quem é o culpado? Quem é o agressor? Qual é a história real? É ficção, mas certamente é importante reconhecer que há abuso envolvido aqui. Abuso de poder”.

Selome Hailu em matéria da Variety (2023)

Cena da série Percy Jackson e os Olimpianos (2023) mostrando o protagonista Percy Jackson de olhos fechados conversando com Medusa.

Percy Jackson e os Olimpianos (2023).

Essa versão atual da Medusa também é a protagonista do livro Olhar Petrificante: A História da Medusa do mesmo ano. A autora Natalie Haynes revisita o mito e contesta a representação desse ser mitológico como “monstro”.

Acho que, sem pensar, tendemos a ficar do lado de homens aventureiros, porque tantas histórias em todas as culturas nos convidam a fazer isso. Até há relativamente pouco tempo, apenas algumas de nossas histórias pediam para nos identificarmos com mulheres. As personagens femininas tiveram um papel muito importante nas narrativas antigas, mas depois ficaram perdidas por muito tempo. Quase todos nós crescemos com Perseu como nosso herói, o bravo homem que salva Andrômeda de um monstro marinho. Mas para salvar Andrômeda, Perseu precisa primeiro pegar a cabeça de Medusa, e isso imediatamente a desumaniza. Não pensamos na Medusa como uma górgona, mas como a dona da cabeça que precisamos. As pessoas têm de ser lembradas que ela é uma de três irmãs, que choram quando ela é tirada delas. Medusa não fez nada de errado. Na verdade, seu poder de transformar em pedra quem olha em seus olhos só é usado após sua morte, justamente por Perseu. Ela não usa esse poder quando está viva. E, no entanto, tendemos a olhar para isso com horror.

Entrevista com Natalie Haynes pela BBC (2022)

Todas as Profecias levam à Medusa #

O signo da Medusa, majoritariamente a versão de Ovídio, está presente em A Primeria Profecia, e não é apenas uma referência visual como demonstrado no início do texto. A popularização da origem greco-romana evoca muito mais significados que ressoam na realidade: A Medusa como uma vítima de abuso, não é apenas punida por Minerva, como também é presa e isolada em uma ilha com suas outras duas irmãs. Além do trauma, essa é mais uma consequência do modelo de sociedade que pune a vítima e também a silencia.

Cena do filme A Primeira Profecia (2024) mostrando Margaret deitada em um pequeno colchão em posição fetal no quarto do castigo. Seus cabelos novamente estão revoltos.

A Primeira Profecia (2024)

No filme, Margaret é presa no quarto do castigo e descobre que a criança Carlita (frequentemente trancafiada no mesmo quarto) também é uma vítima do mesmo experimento da Igreja, sendo gerada e criada com o propósito de ser violentada (ambas são irmãs, assim como as górgonas). O horror final ocorre quando Margaret descobre que está grávida e ela será o “monstro” que trará à terra o anticristo.

Cena do filme A Primeira Profecia (2024) mostrando a personagem Luz em sua cerimônia para tornar-se freita. Atrás dela, uma mulher aperta a coifa em sua cabeça, enquanto Luz está com uma expressão séria.

A Primeira Profecia (2024)

A suposta colega Luz, partícipe da conspiração, faz seus votos para tornar-se freira, renunciando a vida de luxúria que aparentemente levava, em uma cena que foca no quão apertado deve ser a coifa de sua nova vestimenta, escondendo completamente seus cabelos.

Buscando ainda mais os signos, é curioso como a história de Perseu e o apagamento do trauma de Medusa encontra paralelos com o próprio A Profecia (de 1976) ao colocar Robert Thorn como protagonista, e não sua esposa Katherine. É ela quem é enganada (seu marido esconde que seu filho morreu no parto e foi trocado por outro no nascimento), impedida de abortar por imposição de Robert (mesmo extremamente afetada psicologicamente pela maternidade conturbada de Damien); e é quem mais sofre nos desígnios do Diabo: é atacada por macacos, jogada do segundo andar da casa e, por fim, assassinada.

Cena do filme A Profecia (1976) mostrando a personagem Katherine em primeiro plano, sentada e com sua cabeça apoiada na sua mão. Ela possui um olhar vago. Atrás dela, em segundo plano, aparece a criança anticristo Damien brincando.

A Profecia (1976)

Podemos assistir A Profecia sob o prisma do comentário social sobre a falta de autonomia da mulher na sociedade. Apesar do aspecto fantástico do roteiro, o mundano é tão aterrorizante quanto, principalmente para as mulheres: as agressões sociais à Katherine vão desde a imposição de se mudar de país pela troca de emprego do marido, até ser impedida de decidir sobre seu próprio corpo, com sua função de procriação sendo mais importante que sua existência (quando ela está no hospital se recuperando da queda e a preocupação do marido é sobre sua capacidade de ter mais filhos).

Tanto a Medusa é uma coadjuvante na história de Perseu, quanto a sua morte é apenas um meio de geração de Pégaso (o cavalo alado nasce do sangue da górgona decapitada). Em A Primeira Profecia, Margaret também é mero instrumento para a concepção do anticristo, é forçada a realizar o parto, mas consegue evitar a morte (ao menos momentaneamente, pois sabemos o seu destino devido ao filme de 1976).

A protagonista também recebe um final menos trágico: consegue fugir junto com sua filha recém-nascida (gêmea de Damien) e de Carlita. Passam a se esconder em um lugar distante e isolado. Três górgonas silenciadas tentando eternamente fugir de uma opressão profética.

Cena do filme A Primeira Profecia (2024) mostrando Margaret, sua filha e Carlita rindo e jantando reunidas em uma casa de madeira.

A Primeira Profecia (2024)

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Publicado em 26/02/2026 #

Referências Bibliográficas #