Como foi o processo da minha ilustração de The Witcher?

Quero escrever o que eu gostaria de ler #

O processo criativo é algo que envolve muito esforço, estudo e é tão importante para o artista quanto o seu resultado. Não há muito lugar para compartilhar esse processo no lugar insalubre que a Internet se tornou. Sua divulgação por vezes é relegada à um vídeo tipo timelapse de 10 segundos em formato vertical em uma rede social.
Esse texto, portanto, é meu ato de resistência (o site inteiro é, se parar para pensar). Escrever sobre meu processo criativo foi, desde o começo, parte da intenção desse site e o texto de hoje é sobre minha ilustração baseada em The Witcher!

Inclusive, se você se interessa por The Witcher, saiba que eu participo do Podcast Geraldo! Um podcast criado com o propósito de ler e discutir em sequência todos os romances da série literária do autor polonês Andrzej Sapkowski! A cada episódio, analisamos um novo capítulo, e a cada temporada, um novo livro! Confira aqui!

Depois de ter lidos todos os livros, jogado os jogos e assistido à série televisiva, a ideia de desenhar Geralt de Rívia era cada vez mais presente na minha cabeça, mas só tornou-se uma necessidade quando me deparei com a capa do livro de RPG de The Witcher. Sua ilustração que me fez pensar “eu queria ter desenhado isso” (acho que esse pensamento é muito comum entre artistas, além de ser um excelente motivador). Meus primeiros esboços envolviam Geralt de frente, agachado após derrotar alguma criatura (infelizmente os joguei fora e por isso não tenho foto para mostrar aqui).

Capa do RPG de Witcher com uma ilustração de Geralt com o mesmo visual do jogo witcher 3, ele veste uma armadura leve e segura uma espada na sua mão direita enquanto outra repousa na bainha em suas costas. Ele está sobre uma criatura morta com chifres. Sua pose é de combate, com uma expressão atenta no que parece ser uma floresta com árvores retorcidas. Há o texto na capa: Jogando RPG no mundo perigoso e sombrio de The Witcher.

Capa do RPG de Witcher.

Não gostei dos esboços (pois na minha cabeça lembravam muito a capa do RPG) e, algumas semanas depois, me forcei a pensar o que eu gostaria de desenhar. Lembrei de uma conversa que ocorreu nas gravações do Podcast Geraldo de como o Geralt tinha uma amizade verdadeira com Jaskier e como eles se divertiam juntos (ao contrário do retratado na série da Netflix). Logo a ideia de desenhar ambos cantando lado a lado tomou conta de mim. A história veio instantanamente: ambos estariam cantarolando enquanto cavalgam juntos, voltando de uma caçada do bruxo.

Desenho de The Witcher, nele Geralt e Jaskier estão andando de cavalo em direção à direita da folha. Os cavalos estão desenhados de lado. Montado no cavalo a frente está Geralt, com uma expressão sorridente, carregando duas espadas nas costas e segurando na mão direita as rédeas da sua égua Plotka e na mão esquerda as rédeas do cavalo de Jaskier. Pendurado em Plotka também está a cabeça decapitada de uma criatura monstruosa com traços de morcego. Jaskier, está com suas duas mãos ocupadas tocando um alaúde e cantando a plenos pulmões. De seu instrumento saem claves que formam uma partitura na parte superior do desenho. O desenho é todo em preto e branco com sombras duras, rachuras e o fundo do cenário é cinza.

Meu desenho em sua versão final (com finalização digital).

Esboço e a Arte-Finalização de Schrödinger #

Não posso dizer que sigo um padrão, mas meu primeiro esboço é feito mais de memória, com formas geométricas, para entender como a folha seria preenchida e a disposição dos elementos. Foi nessa hora que percebi que as coisas seriam mais complexas do que previ: Seria necessário não só buscar referências de roupa do Geralt e Jaskier, como também do monstro caçado, de cavalos e (que tal?) da música cantada pelo bardo!

Três fotos agrupadas mostrando o processo de desenho à lápis. Na primeira foto há o esboço da ilustração com traço bem fraco e nas outras duas fotos começam a aparecer mais detalhes e o desenho tomando forma.

Esboços à Lápis.

Geralmente tento fazer um traço fraco de lápis na folha com formas (um tanto disformes) e começo a consultar referências para passar o lápis com mais força e precisão para definir o desenho por completo, deixando a parte de arte-finalizar com tinta como uma terapia (o exercício operacional de apenas contornar o que já estava pronto de lápis é algo extremamente relaxante para mim). Mas devido às múltiplas referências e para não sujar muito o papel, dessa vez, optei por deixar o desenho à lápis menos detalhado e inventar com muito atenção na etapa do nanquim. Assim arrisquei cometer erros com nanquim e precisei arrumar algumas coisas com tinta branca, como a orelha e a bota de Geralt.

Três fotos agrupadas mostrando o processo de finalização com nanquim. Em cada uma delas há mais partes finalizadas com nanquim e na última o desenho está totalmente finalizado com o nanquim por cima de todas as partes que estavam à lápis.

Processo de arte-finalização com nanquim.

Os materiais que usei foram:
Lápis Comum (HB) (Tenho o costume de usar lápis convencional, nunca me acostumei com lapiseira ou grafites mais finos para sombreados);
Folha A4 180g/m² (É melhor para trabalho com tinta nanquim pois não rasga ou molha com facilidade);
Caneta Nanquim 0.5 (para as partes em que era necessário preencher espaços de preto);
Caneta Nanquim 0.2 (para contornos de elementos);
Caneta Nanquim 0.1 (meu padrão para arte-final);
Caneta Nanquim 0.05 (para detalhes e rachuras);
Régua de 15cm (para as espadas e alaúde).

Roubando como um artista #

Sem dúvidas, o mais complicado foram as referências, minha forma de usá-las é: desenhar no papel e olhar para imagens no celular ou computador, sempre buscando por ângulos parecidos ou invertendo imagens para que fiquem no mesmo sentido que preciso.
Antes do esboço já havia definido que iria usar o jogo The Witcher 3: Wild Hunt como principal referência, o que facilitou a busca por imagens (inclusive usei algumas capturas de tela próprias). A primeira parte que finalizei foi a cabeça do monstro vampírico Ekimmara (criatura escolhida devido meu fascínio por vampiros). Na imagem abaixo há duas capturas de telas minha e uma ilustração de Ekimmara do jogo de cartas Gwent.

O que eu gostei: Fiquei muito satisfeito com as texturas e a simulação de relevo e rugas na pele do monstro.
O que eu não gostei: A disposição das cordas e gancho não ficaram muito claras e não contribuíram para dar profundidar ao formato da cabeça.

Mosaico de imagens contendo a parte do meu desenho que mostra a cabeça da Ekimmara ao lado das referências: uma captura de tela do jogo The Witcher 3 mostrando uma cabeça de Grifo, outra mostrando equipamentos de Geralt como uma pequena espada enrolada em panos em cima da sela de um cavalo; e uma ilustração de The Witcher mostrando dois monstros Ekimmara atacando um cavalo.

Referências para cabeça de Ekimmara e itens de Geralt.

O próximo desafio foi a montaria. Talvez a última vez que eu tenha desenhado um cavalo tenha sido mais de uma década atrás, porém achei muito divertido esse exercício (é um animal lindo demais).
A primeira referência à direita para a égua Plotka foi a principal (quase uma transposição para a folha) e as outras utilizei para a cabeça do cavalo e principalmente para o cabresto (um equipamento muito mais elaborado do que imaginava).

O que eu gostei: Toda a musculatura e o contraste duro com as sombras, também fiquei impressionado com o resultado na cabeça e os olhos.
O que eu não gostei: A proporção me incomodou, embora eu tenha pesquisado e existem cavalos de alturas diferentes, gostaria que ele fosse mais alto do que o Geralt e não tivesse o mesmo tamanho que ele.

Mosaico de imagens contendo a parte do meu desenho que mostra os cavalos ao lado das referências: uma captura de tela do jogo The Witcher 3 mostrando Geralt ao lado de Plotka, uma foto de corpo inteiro de um cavalo de lado e outras três de cabeças de cavalo.

Referências para Plotka e cabresto.

Para o Geralt, escolhi retratá-lo com a vestimenta que mais gosto, a Armadura de Mantícora (possuo uma relação de afeto com esse traje do bruxo em The Witcher 3 porque ele faz referência ao utilizado no primeiro jogo da série, The Witcher, de 2008).
Foi um pouco demorado para encontrar imagens certas, mas um vídeo do youtube de alguém que modelou o traje me salvou!
O rosto de Geralt foi até tranquilo (tirando um desastre que ocorreu e precisei corrigir com tinta branca). Para mim, a sua expressão feliz, diferente da grande maioria de ilustrações e representações do personagem, é a alma dessa ilustração.

O que eu gostei: Consegui desenhar todos os detalhes do traje e adorei o Geralt alegre.
O que eu não gostei: Por ser uma ilustração em preto e branco com sombras “duras”, não consegui fazer o contraste necessário entre as partes brancas e marrons da armadura. Por fim, tomei a decisão de não diferenciá-las.

Mosaico de imagens contendo a parte do meu desenho que mostra o corpo inteiro de Geralt ao lado das referências: uma captura de um vídeo que modelo em 3D a roupa de The Witcher 3 com a armadura de Mantícora; Uma arte do jogo com a cabeça de Geralt de perfil e uma foto com duas espadas do mesmo conjunto da vestimenta escolhida.

Referências para Geralt e armadura de Mantícora.

Jaskier trouxe alguns problemas (como de praxe rs) para esse projeto:
1.) Desenhar um alaúde e suas várias cordas e detalhes;
2.) Descobrir a posição correta de mãos e dedos;
3.) Fazer OUTRO cavalo (escolhi fugir desse problema deixando-o atrás e mais nas sombras que a Plotka).
Nessa parte o uso de régua foi essencial para que a proporção das cordas e trastes do alaúde não ficassem estranhas e também tomei a liberdade de deixá-lo com 5 cordas para facilitar.

O que eu gostei: A disposição dos braços e o alaúde saíram exatamente como eu queria.
O que eu não gostei: Errei no pescoço, desenhei um traço no ângulo contrário do que deveria (é possível comparar com a referência no centro superior da imagem abaixo).

Mosaico de imagens contendo a parte do meu desenho que mostra Jaskier tocando um alaúde ao lado das referências: uma foto de um homem cantando; a pintura

Referências para Jarkier.

E, finalmente, o grande desafio: a música cantada e tocada por Jaskier! Escolhi usar a partitura de “Toss A Coin To Your Witcher” de Sonya Belousova & Giona Ostinelli que compuseram a trilha sonora da primeira temporada da série The Witcher de 2019. O problema foi que a primeira partitura que usei como referência era uma de piano que separava em duas faixas (melodia e acompanhamento), por esse motivo eu desenhei todas as claves “de ponta cabeça”. Comparando com outras partituras e consultando um amigo músico, entendi que não estava errado, mas que não era um jeito tão comum de representar o que eu queria, por isso resolvi apagar e refazer tudo. O papel, no entanto, se lembrará para sempre, pois não consegui apagar a primeira versão completamente. Felizmente, ao digitalizar, essas manchas não ficaram aparentes.

O que eu gostei: As claves musicais ficaram melhor do que esperava!
O que eu não gostei: No meio está muito “reto”, tirando um pocuo do movimento desejado.

Mosaico de imagens contendo a parte do meu desenho que mostra as claves musicais a lápis, depois finalizadas e também a partitura que usei como referência com o trecho da música

Referências para a música.

Manual para Digital #

Concluída a parte manual, a próxima etapa foi digitalizar, editar os níveis de preto e branco (de modo que as marcas de borracha não aparecessem) e decidir o que fazer com o fundo, uma vez que o desenho original ficou muito claro e não tinha contraste do fundo com os personagens. Essa parte quem fez foi a Daielyn (acompanhem o trabalho dela por aqui!), inclusive criando três alternativas de fundo.

Mosaico de imagens contendo três versões da ilustração: 1) com o fundo cinza; 2) com o fundo degrade (de cima para baixo) de cinza para branco; e 3) com o fundo preto (e com a canção em branco para ter destaque do fundo).

As três versões da ilustração.

A versão escolhida foi a com fundo predominante cinza (uma escolha difícil) e, depois de muito esforço e horas em cima do papel, a ilustração foi finalizada!

Quando chega a hora de dar um ponto final, tenho uma sensação de dever cumprido muito prazerosa e, mesmo ainda enxergando possíveis melhorias (o que é normal), sou dominado pelo desapego e logo penso “nunca mais quero tocar nesse desenho!”.

Se você chegou até aqui, saiba que estou muito feliz em poder compartilhar essa experiência e espero que, de alguma forma, isso te motive (e continue me motivando também) a desenhar mais! Desenhar sempre!

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Publicado em 24/06/2026 #