As duas meias Odisseias de Nolan.
Quando Christopher Nolan anunciou que iria fazer um filme sobre a Odisseia, minha primeira reação foi de descrença. Afinal, é o diretor famoso pela suas abordagens realistas (uma trilogia do Batman que molda até hoje o cinema de super-heróis) e que, na oportunidade que teve de ser imaginativo, entregou o sonho mais lúcido de todos (alô, A Origem!).
Apesar de tudo, eu tenho um profundo apreço pelas obras do diretor (que foram também tema em projetos acadêmicos que realizei) e muito do meu gosto por cinema se deve a ele, não vou negar.
Ao mesmo tempo, a Mitologia Grega também sempre foi algo que me cativou, algo que inclusive, tenho como um dos interesses que me definem (ou que eu escolho para me definir?) como pessoa desde criança.
Fui o mais otimista possível quando surgiram as primeiras notícias e, principalmente, quando o marketing absurdo do filme começou. Me planejei para assistir em IMAX e comprei o maior balde de pipoca e coca-cola zero.
Essa festa virou um enterro.
Como manda a Lei de Zeus #
A sensação ao assistir o filme, infelizmente, foi de desconforto: de “eu deveria estar gostando, não?”, porém cena após cena, eu ia justamente desgostando das escolhas do diretor.
Primeiro de tudo: a montagem. Uma história famosa pela sua série de adversidades tornou-se confusa quando os flashbacks tem seus próprios flashbacks, e isso prejudica o ritmo do filme, que só volta a estabelecer-se em sua última parte.
“Aerofolio. Para o meu palio.”
Outro ponto que tive muita boa vontade e fui enganado foi a produção artística. Para além das discussões se as vestimentas são, ou não, fidedignas ao período retratado da Grécia Antiga, o que vigorou durante as quase três horas de filme foi uma inconstância incômoda. 95% de tudo no filme tem uma aparência pálida, pouco inspirada e genérica: Odisseu em nada difere dos outros tripulantes e Troia parece ser um bairro; enquanto os outros 5% são designs extremamente anacrônicos: Agamenon, os troianos, os lestrigões (ou os Silver Knights de Dark Souls) e principalmente a roupa de loja de departamento que Telêmaco e Menelau usam para caçar.
Um patrocínio: The North Face
É importante não confundir à crítica à identidade visual com uma crítica à uma suposta acuracidade histórica dos visuais, afinal, isso não existe nem no poema original:
Então, a ideia de que existe um único período temporal em que precisamos situar a Odisseia e torná-la historicamente autêntica? Homero não fez isso. O famoso capacete de dentes de javali descrito no Livro 10 da Ilíada é um tipo de capacete muito mais antigo do que aqueles que eles costumam usar nos poemas homéricos. Se você for ser autêntico, precisa fazer com que todos usem o mesmo tipo de capacete. Portanto, toda essa fixação sobre “por que eles estão vestidos como o Batman?”... bem, você não precisa ser autêntico. Você pode fazer o que quiser. Homero já estava tomando enormes liberdades criativas com o tempo, com os adereços e com a linguagem.
Para concluir essa parte, algo que não convenceu foi a atuação da grande maioria dos atores, principalmente de Matt Damon (Odisseu) e Himesh Patel (Euríloco). Não acreditei em nenhum momento na amizade ou seja lá qual for a relação que eles tinham e isso reflete em outro grande problema: afinal, alguém assistiu ao filme e sentiu-se apegado aos tripulantes daquele navio? Aparentemente o roteiro contava com o espectador preocupando-se, junto do protagonista, com as suas mortes (eu não poderia ter me importado menos).
Em termos de adaptação, em um âmbito mais geral, não fico frustrado pelas oportunidades perdidas, uma vez que entendo o papel desse filme como um produto cultural de Hollywood, e continuarei o texto mais focado em criticar escolhas de roteiro (e o porquê da sensação agridoce ao assistí-lo), mas acho importante citar um trecho da crítica de Emily Wilson, ninguém mais, ninguém menos que a tradutora para inglês da versão que Nolan usou como base para o filme:
A Odisseia de Nolan carece de muitos dos elementos que tornam o poema grandioso. O filme não tem nada de convincente a dizer sobre o tempo, a memória, a história, a guerra ou sobre a relação entre o retorno glorioso de um guerreiro e as vidas de sua família, adversários, companheiros, amigos e vizinhos. Falta-lhe profundidade psicológica, emocional, política e ética. Sua estrutura narrativa é cheia de artifícios. A escrita é abismal. Nenhum dos personagens tem motivação convincente para suas ações ou palavras. Não há cenas de sexo, e toda a comida parece horrível.
A Odisseia: ou o Oppenheimer Grego #
Deixando um pouco da implicância de lado, vamos para o que realmente funciona no filme: majoritariamente as cenas que se passam em Ítaca (principalmente no fim do filme) e o encontro de Odisseu com Sinon na entrada do Hades. Mas por quê? Por que são nesses momentos que Nolan se afasta mais do poema de Homero e adiciona a sua visão da história, respondendo a principal pergunta que toda nova adaptação traz: O que esse diretor poderia trazer de novo para essa história que já foi tantas vezes recontada e adaptada?
A resposta está no filme que Nolan dirigiu antes de Odisseia: Oppenheimer de 2024. Nele temos a dramatização (também adaptada de um livro) de um protagonista usando sua inteligência para terminar com uma guerra e, após o uso do dispositivo que ele idealizou, passa a ser atormentado por culpa e arrependimento ao se dar conta das consequências da sua invenção.
Nolan, portanto, adiciona um trauma ao personagem clássico Odisseu, transformando o cavalo de Troia na bomba atômica.
Vila do Chaves em chamas.
E eu vou ser bem sincero aqui: minha expectativa estava bem calibrada e já tinha aceitado que não veria a complexidade temática do poema original e muito menos interações interessantes entre deuses e mortais, portanto, o conceito de Odisseu-Oppenheimer já seria instigante o suficiente, principalmente pelas possibilidades de adaptação das desventuras do herói astuto trágico para essa nova “configuração emocional” resultado de uma interpretação pós-moderna.
• E em quais momentos essa nova abordagem foi explorada? Listo abaixo o que esteve presente na nova obra:
• A lembrança do fim da Guerra de Troia como algo traumático (apesar das cenas de invasão do filme carecerem de potência. O filme Troia de 2004 trazia às telas uma ataque muito mais assustador e cruel).
• A descrição de Menelau de como foi horrível se esconder no cavalo de madeira (que em muito se assemelha à experiência de soldados em trincheiras na Primeira Guerra Mundial).
• Um protafonista claramente incomodado com algo (embora a atuação de Matt Damon deixe a desejar quanto a transparência dessas emoções);
• O herói encontrando Sinon no Hades e tendo um diálogo sobre suas participações na guerra.
• A confissão à Penélope de que ele tornou-se um grande violador da Lei de Zeus (insistentemente citada no filme).
• A revelação de que a representação de Atena vista por Odisseu era sua culpa cristã personificada.
E a minha crítica está justamente aí: faltou o roteiro se arriscar e se aprofundar mais nesse contexto. Pois a nova temática de soldado com PTSD se restringe à essas cenas em um filme de quase 3 horas.
Mas a representação de Odisseu como um chefe militar relutante transforma o mundo imaginado do filme em algo sem sentido. Não nos é mostrado que a guerra ou o ato de matar sejam ruins, apenas que homens bons às vezes se sentem mal com isso — o que é um ponto muito diferente. Qualquer representação séria de violência, seja antiga ou moderna, deve mostrar tanto a perspectiva das vítimas quanto a dos agressores, e os poemas homéricos ultrapassam essa fasquia com facilidade — ao contrário de Nolan. Os troianos são desumanizados por suas máscaras; não conhecemos nenhum deles por nome ou rosto. As mãos de Odisseus e Telêmaco só se sujam de sangue pelas formas mais justas de matar, como acontece em videogames, e não sentimos nenhuma piedade ou horror diante da morte de suas vítimas, sejam troianos, gigantes, pretendentes ou escravos. Durante o saque de Troia — que ele supostamente organizou —, Odisseu olha ao redor em perplexidade e horror, como se nunca tivesse visto um massacre antes.
Nas duas horas restantes, o que temos é um Odisseu com um comportamento inconsistente e seletivo, ora inteligente, ora burro, jogado em um roteiro que só se preocupava em recriar os bullet points do poema de Homero, sem filtrar o que realmente iria agregar ao argumento principal do longa-metragem.
Há, portanto, um segundo filme (que, no fim das contas, é o que está na superfície) que em nada conversa com o primeiro: Afinal, no que a cena do cíclope adicionou à história além de que Odisseu é vingativo e sua última flecha o fez perder mais homens? O que a fala de Circe que os soldados comportam-se como porcos adicionou à trama? O que os lestrigões (crendeuspai que troço feio) estavam fazendo no filme para além de ser a cota cena de ação para trailers? Porque esse Odisseu resolveu ouvir o canto das sereias? A resposta é: todas essas cenas estavam ali por um receio de Nolan de não cumprir todos os “requisitos” de uma adaptação de Odisseia.
Certamente o ator que mais se divertiu nas filmagens.
The movie that never was #
Nessa linha de pensamento, que poderíamos ter tido, mas não tivemos?
• Um Odisseu traumatizado pós-Troia se deparando com situações adversas e portando-se como receoso em usar sua inteligência (a principal diferença conceitual com o poema e que tornaria o filme especial: a sua inteligência seria uma maldição e não uma dádiva).
• Uma relação mais real do rei com seus homens e uma admiração à sua inteligência utilitarista traria mais peso às escolhas do protagonista, que seria obrigado a presenciar sua tripulação morrendo aos poucos ao tomar decisões com o objetivo de sempre salvar um grupo maior (um Trolley Problem/Dilema do Bonde de Philippa Foot reformulado).
• Sua perda de memória ser consequência do estresse de não entender a si próprio: alguém que considera-se um monstro, mas é visto por seus tripulantes como um herói e que possui motivações egoístas, como cumprir sua promessa de voltar à família, independente de quantas vidas precisam ser enviadas para o Hades. Além do trauma de guerra, uma constante relutância em enxergar-se como uma pessoa má (abraçando a lógica cristã apresentada).
• Na passagem com Calipso, ao invés de Odisseu lembrando-se da sua história e propósito e lançando-se ao mar Deus Ex Machina, um Odisseu tendo que aceitar que, para voltar à sua família, precisaria recriar seu Cavalo de Tróia, agora tornando-se um. Surpreender os pretendentes de Penélope, assim como os troianos foram surpreendidos, abusando da Lei de Zeus e conduzindo um novo massacre.
Ou seja, o roteiro incluiu uma nova abordagem que criou contradições, mas perdeu a oportunidade de tornar Odisseu um personagem mais complexo assumindo conscientemente essas contradições para si!. E eu não estou sozinho nessa, em sua crítica ao filme, Emily Wilson também destaca esses aspectos:
Na Odisseia de Nolan, chacinar pessoas com a ajuda de trapaças, tecnologia e armas é apresentado como ruim quando os gregos estão matando os troianos, que violaram a xenia (lei de zeus), mas como bom quando Odisseus está matando os pretendentes, que violaram a xenia. Apossar-se de algo ostensivamente abandonado por Odisseus e seus companheiros é natural e perdoável quando os troianos reivindicam o cavalo, mas não natural e imperdoável quando os pretendentes reivindicam o palácio, a comida, o vinho e a esposa de Odisseus. Estranhos em Ítaca devem ser tratados com gentileza graciosa, como possíveis deuses disfarçados; mas estranhos em terras estrangeiras são geralmente monstruosos, a serem cegados, roubados e chacinados. Desafiar os deuses é nobre e corajoso quando Odisseus cega Polifemo, filho de Poseidon; é estúpido e ganancioso quando Euríloco come o Gado do Sol. A enganação é ruim quando Odisseus engana Sínon ou os pretendentes enganam Telêmaco, mas boa quando Telêmaco e Odisseus enganam os pretendentes. Compartilhar é bom, e Odisseus é visto ocupando seu lugar em um remo ao lado de seus homens; mas o governo de um homem só também é inequivocamente bom, e aqueles que desafiam a monarquia ou a autocracia, ou tentam comer mais do que a porção estipulada, são maus (os pretendentes) ou tolos (Euríloco). De qualquer forma, eles têm que morrer. É ruim lutar e matar para acumular riqueza, como Agamemnon faz; é bom lutar e matar para preservar a riqueza que você já adquiriu (mesmo que através da guerra). Qualquer uma dessas contradições morais poderia render um tema interessante e produtivo em um filme, mas Nolan deixa os fragmentos de um conjunto incompleto de grandes ideias girarem no redemoinho épico, sem nenhuma tábua de experiência humana sólida e específica à qual possamos nos agarrar.
Ao não fazer um cavalo com rodinhas ele realmente abusou da boa vontade dos troianos.
Who doesn’t understand thunder? #
Consoante à essa interpretação, há um fator determinante, o principal responsável por salvar A Odisseia de Nolan de ser um filme ruim: o som e seus usos.
Há uma intimidade e humanidade genuína na trilha sonora e eu amo isso porque subverte todas as expectativas.
A trilha sonora incrível composta por Ludwig Göransson demonstra majoritariamente esse tom mais intimista, trágico e menos épico que, na maioria das vezes, compensa atuações e falas dos personagens. Ela traz originalidade, embora seja flagrante como tende à voltar ao previsível (sintetizadores e tambores) nas cenas de ação (Ciclope, Lestrigões e batalha final).
Travis Scott como um poeta que narra a Invasão de Tróia também acabou sendo um acerto bem-vindo. Suas frases declamadas são sucintas e trazem mais peso à tragédia do que as cenas de incêndio da cidade invadida. Queria mais cenas envolvendo seu personagem.
O terceiro aspecto sonoro é o arco de Odisseu. É marcante, visualmente impactante e uma alegoria que rima diretamente com a identidade do protagonista: apenas ele consegue prender a corda ao arco, ou seja, somente é capaz de agir e reclamar o trono (embora tenha tentado ensinar outros); É também essencial para ele que sempre se anuncie (revelando-se de seu esconderijo ou disfarce), comportando-se com honra e garantindo um duelo justo, algo que precisou abrir mão para vencer a guerra de Troia para Agamemnon. Razão de sua angústia.
Com muita boa vontade de minha parte, interpreto que tomar o arco para si depois de todos os pretendentes falharem é entender que o antigo Odisseu não havia se perdido, ele é o mesmo que cometeu o grande crime em Troia e o mesmo presente no banquete. A diferença é que, agora, conscientemente de quem realmente é (egoísta? um pecador? uma má pessoa? Ou somente um ser humano contraditório, como todos o são), está disposto a cometer o mesmo crime contra a Lei de Zeus novamente, mas por alguém que ele realmente considera sua rainha.
O último criminoso de guerra romântico
The Odysseus Rises #
Como eu queria que Nolan tivesse apostado todas as suas fichas no Odisseu atormentado e deixasse de fora todos os elementos sobrenaturais (Até porque a Atena “peso na consciência” funcionou). Afinal, de que adianta termos monstros e locais (em locações reais e deslumbrantes) se a direção de arte e a fotografia é pálida e genérica?
Zendaya escalada para o papel de culpa cristã
A presença de dois filmes em um, transforma A Odisseia em uma obra inconsistente, com um personagem confuso ao invés de complexo. A derradeira confissão de Odisseu para Penélope é uma tentativa de adicionar um peso emocional que não estava presente até então. Mesmo esse, que deveria ser o clímax, torna-se maçante e compromete demais o ritmo ao ser seguido por uma luta que se estende bem mais que o necessário. Tudo isso é coroado com um fim que denuncia preguiça: o protagonista recém proclamado atormentado, no fim das contas, não sofreu transformação alguma. Ele encontrou sua paz interior(?), viajou de barco com sua rainha e deixou Ítaca para seu filho (um dos herdeiros mais incompetentes da história do cinema).
No fim das contas, A Odisseia ainda tem qualidades que a impedem de ser ruim (ou um Tenet), portanto, nolanzete que sou, ainda confio no potencial de Nolan (que já me trouxe tantas alegrias). Ser humano contraditório que sou, declaro que quando ele lançar seu próximo filme, eu estarei lá, recebendo-o de braços abertos na sala de cinema, como manda a Lei de Zeus.
Esperando mais um filme (bom ou não) do Nolan.
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Publicado em 16/08/2026 #
Referências Bibliográficas #
- Filme A Odisseia (2026) Dirigido por Chritopher Nolan.
- Filme Oppenheimer (2023) Dirigido por Chritopher Nolan.
- Filme Tenet (2020) Dirigido por Chritopher Nolan.
- Filme A Origem (2010) Dirigido por Chritopher Nolan.
- Filme Troia (2004) Dirigido por Wolfgang Petersen.
- Trilha Sonora The Odyssey (Original Motion Picture Soundtrack) composta por Ludwig Göransson.
- Livro A Odisseia de Homero. Traduzido e adaptado por Fernando C. de Araújo Gomes. Coleção Mestres Pensadores. Editora Escala,
- Matéria “What Is Lost When We Make ‘The Odyssey’ Modern” por Derek Thompson.
- Artigo “An Uncomplicated Man” por Emily Wilson.
- Vídeo “The Odyssey | In Studio with Ludwig Göransson Odyssey Featurette”.